
Naquele transparente e deslumbrante dia,
Na aula de anatomia
Sobre a pedra glacial, como um fardo qualquer
Desnudo, havia um corpo esbelto de mulher!
Encontraram-no além da via férrea, e ao lado
Daquele corpo moço, o crânio desformado
De onde deduzia ter sido certamente
Essa infeliz mulher, vítima de um acidente
Impossível tornou-se a edificação.
Esperaram, ninguém o reclamou! E então
Mandaram-no, depois deste trágico dia,
Como um presente régio a douta academia
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Quando Guilherme entrou ao vê-lo disse rindo
Que corpo escultural! Que corpo esbelto e lindo
Que pernas! Como são bem feitas – Sem rodeias
Olha com volúpias aqueles rígidos seios!
Rapazes! Venham, venham ver a estátua magistral
De uma Vênus de Milo um tanto original!
E por mais singular que o fato vos pareça!
Esta tem braços sim,
Mas falta-lhe a cabeça
Que pena um corpo assim ser destruído “Vala”!
Em breve uma algazarra invadiu toda a sala...
Todos queriam ver este corpo perfeito
Sem reverencia alguma e sem respeito
Fazendo contratar nessa algazarra forte!
A alegria da vida a tristeza da morte!
- Aí vem o professor... silêncio! Nesse instante
Fisionomia, austera o mestre entrou e, adiante
Deteve a escolher instrumentos vários
Os que para cortar era mais necessários
E rodeado afinal, por toda estudantada,
O austero professor disse com voz pausada
- Vamos hoje estudar o coração... falou
E o escapelo afiado e orgulho mergulhou.
No colo de alabastros...esgarçaram-se os tecidos
E todos, um por um, os ossos são partidos
Abre-se o nivio peito, e os seios emurchassem
Nessa prolanação de lances tão brutais
Uma borda bestial, de feras canibais!
Por fim, do professor as grandes mãos estranhas,
Saudaram com volúpia o fundo das entranhas
Arrancando de lá com muita precaução
Inda rubro de sangue o pobre coração!
Nas mãos do velho sábio, ei-lo agora oscilando,
E, todos com prazer deve-se escaminhando-o!
-“Corte-o Guilherme!” Ordena. O estudante sorriu
Empenhado na dexta o agudo bisturi
Que aquele coração em breve irá cortar!
Mas tem de ser assim... É preciso estudar.
Porém! Tremem-lhe as mãos, os nervos não reagem!
Que coisa! Pois não é que lhe falta coragem?
De abrir o coração desta desconhecida,
Como si nele houvesse o palpitar de vida?
Insiste novamente! Espedaça-lo vai!
De súbito porém, o bisturi lhe cai
- “Então? Que tem? Pergunta o professor surpreso
Olha o pobre rapaz, que cheio de emoção,
Resolve não cortar aquele coração!
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E a tarde ao regressar, à casa pensativo,
Sem poder atinar, sequer porquê motivo
Vê-lhe por um jornal em esgares de megera
Uma horrível notícia! Aquele corpo era,
O corpo virginal de sua noiva ausente.
Por: Nelson Araújo Lima
Compilado por (Daisy Afonso)